sábado, 9 de julho de 2022

Diana

 



Chovia há tanto tempo que a humanidade já havia se esquecido de como era o sol. Os poderes do fogo eram escassos e os que o dominavam estavam quase em extinção. As Ondinas tomaram o poder por um momento de fraqueza do povo do fogo. Outrora poderosos, deixaram-se enganar pelo orgulho, desprezaram os demais elementos, então foram derrotados. A montanha sagrada foi apagada e os filhos do fogo caçados e mortos. Os que sobraram se esconderam e deixaram seus poderes de lado. Agora quase não havia mais chance de equilíbrio. Tudo estava molhado ou úmido.  Até a alma das pessoas juntava bolor.

Diana nasceu debaixo de um chuvisco fino, perpétuo, que impregnou seus ossos trazendo dores que nenhuma criança deveria sentir. Cresceu em meio aos fungos e musgos. Algo dentro dela se rebelando àquele tempo. As dores se intensificavam a cada ano completado. Uma ardência, como metal quente mergulhado em água gelada. Borbulhava.

Assim que completou quinze anos de dores e desespero, descobriu o motivo de tanto sofrimento. Um pouco antes do meio-dia seus pais a levaram por um caminho subterrâneo até um salão escuro e abafado. Logo algumas pessoas chegaram, mais silenciosas do que a neve que caia nas montanhas. Viu que entre os presentes estava Leon e seu sangue ferveu, assim como, quando viu pela primeira vez seu sorriso, tão quente quanto deveria ser o sol. Sentia todo o corpo esquentar quando o sorriso era direcionado a ela e com o tempo, passaram a ser tão frequentes quanto às chuvas. Ficou feliz com a presença dele, seria mais uma coisa que teriam em comum. Quando o último dos convidados chegou, fecharam as portas e deram início ao ritual.

Uma mulher idosa coberta por um manto ergueu um bastão, falou umas palavras de ordem e bateu o bastão com força no chão. Faíscas voaram para todos os lados, assustando os desavisados. Em alguns instantes havia fogo! Uma fogueira foi acesa no meio do salão, assim como todas as velas, iluminando o ambiente e trazendo para a jovem Diana uma excitação no tutano dos ossos. Era a primeira vez que via o fogo e na mesma hora soube que havia nascido para controlá-lo.

Não fazia ideia que era uma das filhas do fogo, seus pais não haviam mencionado nada e nunca os vira usando seus poderes. Agora estavam em pé atrás dela segurando cada um a sua vela e incentivando-a a deixar fluir os seus poderes.

Enquanto todos observavam, hipnotizados, as labaredas da fogueira, uma criatura se formava em meio às chamas, uma figura feminina, incandescente, se levantou do meio do fogo e começou a caminhar entre eles.

Os mais velhos entoavam uma canção de boas vindas enquanto os jovens iniciantes observavam incrédulos.

— Seja bem vinda, Vulcana! Hoje é dia de iniciação, acolha os jovens filhos do fogo para fortalecer nosso povo.


Ela caminhou deixando pegadas fumegantes no chão úmido, seu calor diminuía enquanto as labaredas iam dando lugar a uma pele vermelha com alguns tons de laranja. Era assustadora e ao mesmo tempo admirável. Diana nunca havia imaginado nada parecido, nem em seus sonhos mais loucos onde conseguia, de alguma forma, trazer o sol novamente.

Todos os adolescentes em iniciação seguravam uma vela acesa e alguns tremiam de medo ao encarar de perto a figura tão inusitada. Ela foi tocando um por um, falando-lhes palavras mágicas ao ouvido, fazendo a chama da vela que seguravam aumentar. Diana observava atentamente todos os movimentos de Vulcana, nem piscava para não perder nada. Queria ser igual a ela.

Quando a figura se aproximou, sentiu seus ossos estremecerem, tudo nela lhe causava admiração. Seus cabelos pretos como carvão reluziam num emaranhado de cachos apertados, parecendo ter vida própria, cresciam e diminuíam de acordo com seus movimentos. Seus olhos faiscavam como carvões incandescentes. Seu cheiro era de noz moscada e canela. Quando ficaram frente a frente, os cabelos de Vulcana se levantaram e imediatamente pegaram fogo.  Diana prendeu a respiração diante de tanta autoridade e vitalidade, podia sentir toda a energia, cura, amor e purificação que emanava do fogo.

Lentamente soltou uma das mãos da vela que segurava e aproximou até quase tocar os cabelos incandescentes. Antes que tivesse a chance, Vulcana disse:

— Eis aqui, depois de tantos anos de espera, a escolhida! Ela vai liderar os filhos do fogo ao equilíbrio.  Despertará a montanha sagrada e trará o sol e o verão de volta.

Sua voz ecoava como trovão e diante da notícia uma onda de animação percorreu o ambiente. Ainda sem entender completamente o que se passava, Diana vê os lábios da rainha do fogo vindo em sua direção, não sentiu medo. Sabia, por instinto, o que ia acontecer. Com o tocar dos lábios, toda a essência de Vulcana passou para Diana.  Era como engolir fogo líquido. Em algum momento achou que fosse morrer, mas assim que Vulcana desapareceu, pode senti-la dentro de si, parte agora inseparável de seu ser. Sentiu-se poderosa, transmutada, evoluída. Todos formaram um círculo ao seu redor e a anciã anunciou que Diana era a nova rainha do fogo.

Restaurar o equilíbrio não seria fácil, e Diana não imaginava o que teria que sacrificar para conseguir, mas estava disposta a tudo. Olhou para Leon, que a encarava preocupado, sem o sorriso costumeiro. Sem mais espera, a anciã conduziu a nova rainha a uma sala onde estavam acesos incensos de sândalo, café e arruda. Diante da minguada família do fogo, foi preparada para salvar sua raça. Perfumaram-na com óleo de rosas e calêndulas, trouxeram uma poção feita com alho e romãs para atrair mais energia e sucesso.

Depois do ritual de purificação, todos apagaram suas velas e foram, em pequenos grupos, sem levantar suspeitas, até a montanha sagrada, que estava adormecida. Chegando lá, um novo ritual se iniciou e Diana sentia a montanha a chamando. Subiram até o topo, debaixo de intensa chuva que encharcava todos, menos Diana, sua nova essência impedia que a água impregnasse em suas roupas, cabelos e pele.

Chegando ao topo tiveram uma visão clara do interior da montanha, um vulcão. Escuro e frio. Diana percebeu então o que teria que fazer. Antes de conseguir processar tudo, ouviu a voz grave de Leon:

— Vai mesmo fazer isso? — seus olhos imploravam.

— Se você fosse o escolhido, faria?— Sentiu que as lágrimas estavam prestes a explodir.

— Claro! Mas é diferente… — Ele titubeou, engasgando na última palavra.

— Diferente por quê? — Olhou dentro de seus olhos querendo conseguir ler sua mente.

— Porque não teria que continuar vivendo sem você…

Diana não conseguiu conter as lágrimas, apertou as mãos dele e sussurrou:

— Pelo menos essa dor eu não terei que passar…

Seria capaz de abdicar de tudo assim? Tão jovem, nunca havia provado os prazeres da vida, nem suas aventuras, seus amores, só as dores. Mas agora fogo líquido corria pelas suas veias e a sensação de pertencer a alguma coisa nunca havia gritado tão forte dentro dela. A montanha a chamava. Aproximou seu rosto ao de Leon e encostou seus lábios nos dele dando assim seu primeiro e último beijo. Olhou ao redor tentando gravar todos os rostos queridos na memória, respirou profundamente e sem pensar em mais nada, ela pulou. Enquanto caia, lembrou do abraço apertado da mãe, do beijo do pai, seus olhos marejados de orgulho e dor.  A descida foi longa, quanto mais caia, mais profundo e urgente era o chamado do vulcão, em algum momento sentiu que incendiava. Foi sua última lembrança como Diana.

Um relâmpago riscou o céu e rasgou as nuvens, seguido pelo estrondo ensurdecedor do trovão, que abalou a montanha sagrada que começava a fumegar.  Os filhos do fogo celebravam a vitória enquanto as Ondinas se resignavam com o justo reequilíbrio dos elementos. Antes que o vulcão entrasse em erupção de vez, todos conseguiram descer em segurança e observar a lava que escorria, enquanto o céu ia clareando e aos poucos o sol, majestoso, quente, vital, voltava a brilhar depois de tanto tempo.

 No ano seguinte, na reunião de iniciação, a rainha do fogo foi invocada, levantou-se das chamas poderosa, esplendorosa e triunfante. Todos reverenciaram Vulcana e como uma homenagem ao sacrifício de Diana, Leon ofereceu a primeira flor que desabrochou no tão aguardado verão, um girassol.

— Não se preocupe, Diana viverá eternamente através de mim. Aproveite o sol.  

E foi o que ele fez.



terça-feira, 5 de julho de 2022

Sob um céu de vigilância

 


Logo iria escurecer, Layla apertou o passo afastando galhos e folhas que, se por um lado atrapalhavam de ir mais rápido, por outro serviam de camuflagem. Não via um drone desde que saíra do perímetro urbano, mas precaução nunca era demais. As palavras de sua companheira de república ainda martelavam em sua mente: 

“Não vai fazer o procedimento? Hoje é o último dia, pelo amor de Deus… já estão perguntando se conhecemos alguém que ainda não fez.”

“Vou fazer, só estou sem tempo…”

“Tem um posto na sua faculdade! Se não fizer hoje, não volte pra cá, vai colocar todas nós em perigo.”

Não conseguiu. Passou pelo posto, estava vazio, aparentemente todo mundo já havia feito, menos ela… No céu, os drones projetavam avisos luminosos sobre todas as vantagens de se colocar o chip. Tinha que admitir, o marketing deles era impressionante: documentação, cartões bancários, histórico médico, GPS e muito mais, tudo no maravilhoso chip. Depois dos anúncios, vinham as ameaças. Os rostos dos pendentes eram passados repetidamente nos telões. Layla baixou a cabeça quando sua foto apareceu. Saiu da faculdade com a mochila que preparou minuciosamente para emergências. À medida que saía da cidade, viu vários agentes do governo, em sua imensa estrutura metálica, olhos vermelhos e mãos que se transformariam em armas caso necessário, fazendo a ronda pelas ruas, ainda pacíficos, ainda solícitos.

Estava acontecendo, no outro dia não seria mais uma cidadã, seria uma ameaça, sumariamente executada se fosse pega. Tudo isso por quê? As palavras de sua mãe não saiam de seus pensamentos, mesmo que não houvesse acreditado nelas quando foram ditas. Não, não podia se render a eles.

Suas pernas estavam inchadas e a dor já atrapalhava a caminhada, o ar queimava em seus pulmões. Ouviu um latido ao longe. Onde havia cachorro, havia gente. Se esconder ou verificar? Logo não poderia continuar, precisava encontrar um abrigo. Seguiu os latidos.

Avistou de longe uma casa pequena, no meio das árvores, cerca de bambu e arame farpado, chegando mais perto e viu alguns animais, uma horta, e o cachorro que latia sem parar. Escutou um clique atrás de si e, virando-se, encarou uma espingarda a poucos centímetros de seu rosto. Quem a segurava era um senhor, de jaqueta jeans e boné. 

− Mostre as mãos. − Ordenou.

Sem chances de defesa, obedeceu.

− Interessante… − Baixou a arma − quer entrar? 

Notando a hesitação da moça, ele tirou o boné e mostrou as costas das mãos que, como as dela, não possuíam a marca da inserção do chip.

− Entra logo, um drone pode passar por aqui a qualquer momento.

A casa era simples, nenhuma tecnologia, apenas um rádio antigo funcionando perfeitamente.

− É meu único contato com o mundo. − Disse percebendo o olhar de Layla. − Trouxe celular? 

− Faz algum tempo que me livrei dele e de todos os rastros virtuais. Sou um fantasma. 

Livrou-se do peso da mochila e sentou no sofá puído. Encostou a cabeça e fechou os olhos. Abriu logo em seguida, com medo de adormecer.

Jantaram ouvindo pelo rádio a transmissão do governo, ao vivo, traduzida para todas as línguas. Era oficial: aqueles que resistiram ao procedimento eram agora inimigos do governo. Seriam encontrados e executados por traição. Cada palavra era engolida junto com o frango, as batatas e a rúcula. Olhos baixos, testas franzidas, mãos trêmulas. Tinham muito em comum.

− Não sei o seu nome… 

− Custódio. 

− Sou Layla. Por que… não colocou? – Tomou um gole de água.

− Nunca gostei da tecnologia, vigilância, ser identificado, rastreado, programado como esses robôs de merda. − Respirou fundo −E você? É nova demais pra essas ideias, já devia estar doutrinada…

− Minha mãe e meu irmão estão entre os desaparecidos − fez uma pausa − ela me contava histórias sobre como seria o mundo depois do arrebatamento, era como ela chamava. Simplesmente não consegui…

− Entendi… seria melhor ter ido com sua família. 

− Eu não acreditava, na época. Agora é tarde demais. 

− Acha mesmo que foi Deus quem levou todos eles, não parece ingênuo demais acreditar nisso? − Pegou duas laranjas e estendeu uma para ela.

− O senhor crê em quê então, na versão do governo sobre abdução em massa? Me desculpe, mas parece muito pior. −Disse pegando a laranja e sustentando o olhar dele.

Ele soltou uma risada forçada.

 − Não sei o que aconteceu com eles e na verdade nem quero saber. Vou arrumar um colchão pra você na sala. − Levantou da mesa, tirou os pratos e saiu, seus passos gritando no silêncio.

Apesar de cansada, demorou a adormecer. 

Corria, o facho de luz alcançando-a onde quer que se escondesse, a voz metálica gritando mais alto que as sirenes: “suspeita sentenciada à morte apreendida”. Era inútil fugir, mas continuava, o agente agarrou seu braço com um aperto de morte. Com um único golpe separou sua cabeça do pescoço. Acordou gritando, suas roupas grudadas no corpo, Custódio chegou correndo com a espingarda na mão.

− O que foi? Viu alguma coisa? − Dizia enquanto verificava as janelas.

− Não, foi só um sonho… Eles, eles arrancaram minha cabeça. − Disse passando as mãos no pescoço e rosto.

− Tente não gritar tão alto na próxima vez.

Ouviam o rádio noite e dia. Havia execuções em massa onde antes era os EUA, na antiga Europa ouvia-se os rumores de resistências se formando, aqui onde foi o Brasil, tudo estava calmo demais, se havia execuções tudo estava sendo abafado.

Tudo começou com o desaparecimento de milhares de pessoas, as crianças sumiram, junto com homens e mulheres independente de idade e nacionalidade. Em um piscar de olhos, deixaram de existir nesse mundo. Depois disso o caos se instaurou, e com isso a necessidade de um governante capaz de restaurar a ordem e a paz se fez necessária. Assim que as negociações foram feitas e o governo mundial foi estabelecido, de forma lenta e constante a ordem voltou, a fome foi erradicada, todos tinham acesso à educação, à diversão e à arte. A vida era boa, até que a implantação do chip passou a ser obrigatória e a vigilância e o controle passaram a ser, para o bem dos cidadãos, extremamente rigorosos, destruindo a privacidade e o direito à liberdade individual. 

Layla observava o céu, antes tão amado, agora cada dia mais vigilante. O cinza metálico dos malditos drones se sobressaindo, maculando o azul celeste. Cada vez mais drones sobrevoavam a casa de Custódio, deixando-os apreensivos e irritados. Os dois pouco conversavam, dividiam as tarefas domésticas e o cuidado com os animais, preparavam as refeições e comiam juntos, o tempo todo ligados no rádio. 

− Já tentou outras sintonias? Pode ter alguém tentando se comunicar. − Disse Layla enquanto enxugava os pratos.

Na mesma hora, Custódio foi sintonizar as frequências no rádio. 

Entre muitas tentativas e erros, um som diferente emergiu da estática, o aparelho reproduziu uma música suave que Layla achou familiar, o mesmo canto que ouvira na voz de sua mãe tantas e tantas vezes.

− Espera! Eu conheço essa música. Deixa aí.

Custódio acertou a sintonia e a canção veio forte e nítida, quando acabou, uma mulher começou a falar.

A voz convocava a todos que não haviam se submetido à opressão do governo a uma nova vida em comunidade, não uma resistência, mas um lugar de abrigo e companheirismo.

− É uma armadilha. − Disse Custódio, notando a agitação de Layla.

− Como pode ter certeza?

− É uma estratégia para capturar ingênuos como você! Não percebe?

− Não podemos ficar aqui esperando eles chegarem, não posso mais viver assim, eu preciso fazer alguma coisa antes que enlouqueça! Se for uma armadilha, pelo menos minha angústia terminará logo.

− Vamos ouvir por mais alguns dias, só para ter certeza… 

Alternando a sintonia do rádio entre a comunidade e o governo, descobriram que o sinal era itinerante e de curto alcance, cada dia chamando quem se interessasse para um local diferente. Layla já estava decidida e tentava, em vão, convencer Custódio a ir junto. Ela planejava sair em um dia que a reunião fosse perto de onde estavam, mas não teve essa chance.

− Layla,vamos embora daqui agora! − Gritou Custódio, quando voltava de uma ronda.

− O que aconteceu? − Disse Layla, correndo pra pegar a mochila.

− Nos encontraram, já estão chegando. 

Correram. A realidade era muito mais aterrorizante do que seus pesadelos. Custódio não conseguia seguir o ritmo de Layla, muitos anos mais nova. O local do encontro estava a quilômetros de distância, na zona rural do outro lado da cidade.

Péssimo dia para fugir.

Pararam para recuperar o fôlego. A luz do dia estava quase se extinguindo, teriam que alcançar o local ainda naquela noite, no dia seguinte, as coordenadas seriam outras e, sem acesso ao rádio, não teriam como descobrir. Evitaram entrar na cidade, mesmo levando mais tempo, havia drones e agentes por todos os lados. 

Caminhavam de cabeça baixa, bonés escondendo o rosto, mochila nas costas e ritmo apressado. Sempre atentos, prontos para correr a qualquer sinal de perigo. 

− Parados! Levantem a cabeça e mostrem as mãos. − Foram pegos de surpresa, a voz metálica fazendo o coração pular algumas batidas.

Pararam, olharam um para o outro e se viraram lentamente. Dos olhos do robô saíram luzes vermelhas que agiam como scanner. 

− Corre! − Gritou Custódio, sacando a espingarda e atirando entre os olhos do robô.

Layla ficou parada alguns segundos, mas logo suas pernas obedeceram ao comando, mesmo que sua mente ainda não tivesse entendido. Uma sirene absurdamente alta começou a soar. 

“Alerta! Suspeitos em fuga!”

Olhou para trás e viu o agente danificado emitindo o alerta, com luzes que piscavam sem parar, quase alcançando Custódio. Não daria tempo, logo dezenas deles surgiriam para persegui-los, mas o instinto de preservação falava mais alto.

O sol se escondeu totalmente e a lua, surgiu no horizonte. Layla perdia as esperanças a cada passo que obrigava seu corpo a dar, as luzes, a sirene, a falta de ar, tudo embaralhava seus sentidos, mas o medo a impulsionava. 

− Continua correndo e não olha para trás. − Ouviu Custódio berrar em sua direção. 

Correu cegamente, sem saber para onde estava indo.

Ouviu um grito.

“Suspeito capturado!”

− Não! − Gritou, olhando para trás enquanto corria. 

Tropeçou e caiu no meio do capim alto, bem a tempo de vê-los ao redor de Custódio, que mesmo caído atirava cegamente até não sobrar mais projéteis. Foi facilmente imobilizado, arrancaram a arma de suas mãos e o forçaram a se ajoelhar. Layla tentava recuperar o fôlego e assistir a cena em meio às lágrimas que embaçavam seus olhos. Um dos agentes projetou um holograma no céu transmitindo em tempo real o que estava acontecendo. 

“De acordo com a lei, o suspeito que se recusou a fazer parte do progresso será executado imediatamente.”

Layla desviou os olhos da cena original, mas não conseguiu desviá-los da projeção. Com um único golpe, o agente separou a cabeça do corpo de Custódio, levantou-a como um troféu para que todos pudessem ver, o corpo caiu enquanto o sangue jorrava, tingindo o capim de vermelho escuro e viscoso. Layla abafou os gritos com as mãos, tentando se controlar. Ainda agachada, coberta pelo capim, saiu de lá o mais rápido e discretamente possível. 

Só pensava em uma coisa, precisava chegar ao lugar do encontro e rezava para que não fosse uma armadilha. A imagem de Custódio decapitado, seu corpo tombando na terra… Não acreditava no que ele havia feito sem nem mesmo crer que a comunidade fosse real… Lágrimas escorriam por suas faces e eram secadas rapidamente com as costas da mão. “Tenho que conseguir, por mim e por ele.”

Correu até que seus pulmões quase explodissem, tentando despistar os agentes. A lua já estava alta quando finalmente chegou o lugar do encontro. Ainda em estado de choque, parou e sentou em uma pedra, tirou uma garrafa de água da mochila e bebeu até que sua garganta seca parasse de doer. Aparentemente não havia ninguém por perto. Seu coração batia tão rápido que chegava a doer. Queria que tudo acabasse logo. Deveria ter se entregado também…

“Pai nosso que estás nos céus…”

O vento gelado da noite trazia sons assustadores, Layla não podia chamar alguém, sinalizar sua presença, não sabia como encontrar o grupo ou fazer com que fosse encontrada. A espera era ainda mais angustiante do que a corrida.

“… santificado seja o teu nome.”

Escutou passos vindo em sua direção e avistou luzes baixas, brancas, não vermelhas como as dos agentes. Levantou-se e ficou alerta. Seu destino estaria selado naquele momento.

“Venha a nós o teu reino…”

Prendeu a respiração quando distinguiu quatro silhuetas entre as árvores. Colocou a mão sobre os olhos se protegendo das luzes das lanternas que foram apontadas para ela. 

− Mostre as mãos! − Uma voz disse ainda de longe.

“… seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.”

Ela estendeu as mãos. As pessoas se aproximaram. 

− Está sozinha? O homem executado mais cedo estava com você?

− Sim…

Desligaram as lanternas e se apresentaram. Cada um falou o nome e mostrou as mãos. Dois homens e duas mulheres. Eles, assim como ela, haviam ousado contrariar o sistema. Estava salva!

“O pão nosso de cada dia dá-nos hoje.”

Caminharam ainda por um bom tempo antes de chegarem ao seu destino. Aos pés de uma montanha, escondida por galhos, folhas e pedras, havia a entrada de uma gruta. Um por um foram desaparecendo pela abertura. Layla atravessou e se viu no interior de uma caverna, a luz das lanternas iluminando o caminho que os levava cada vez mais para dentro da montanha.

“Perdoa as nossas ofensas assim como temos perdoado a quem nos tem ofendido…”

O caminho estreito e abafado deu lugar a um espaço enorme cheio de pessoas que conversavam e riam, todos olharam para os recém-chegados e os cumprimentaram por conseguirem salvar mais uma vida. Abraçaram Layla como se fosse alguém da família. 

− Que lugar é esse? Como conseguiram fazer isso? − Perguntou para a moça que estava ao seu lado.

− Algumas pessoas se juntaram logo que houveram os desaparecimentos e projetaram esse lugar, já imaginando o que estava por vir. Temos muita comida e água estocada. Venha ver tudo. 

“… e não nos deixes cair em tentação, mas livrai-nos do mal.”

Ainda não acreditava que estava segura. Não importava até quando. Não estaria sozinha, se e quando, o pior acontecesse. Pensou em Custódio, faria de sua vida uma homenagem a dele.

“Amém.”


segunda-feira, 4 de julho de 2022

Silêncio no fim do corredor


 


Os gemidos baixos e constantes causavam um misto de contentamento e repulsa em Amélia. Queria que o velho sofresse, embora desconfiasse que suas dores fossem mais imaginárias do que reais, pois nunca permitiu que ela chamasse o médico da cidade para vê-lo. Mesmo assim, esse murmúrio constante a exasperava de tal forma que tinha ganas de calá-lo de uma vez por todas, enfiando-lhe um trapo pela garganta.

Enquanto varria o chão de assoalho antigo, desgastado e em mau estado pela mesquinharia do dono da casa, pensava em como seria se ver livre dele. Sonhava com o dia em que o encontraria morto, tinha a certeza que a ausência dos gemidos a alertaria na hora. Passara a vida toda subjugada por ele, que constantemente sufocava sua espontaneidade, abafava seu espírito e a privava de qualquer alegria da juventude. Ele tinha inveja de seu frescor, sua vitalidade, sua agilidade, tudo que há muito tempo havia perdido.  

A ira que sentia toda vez que estava submersa em tais pensamentos só debandava quando Felício esfregava a cabeça amarela na barra de seu vestido pedindo carinho, os profundos olhos verdes pareciam compreendê-la e aliviavam toda a tensão de mais um dia difícil. Então, largava a vassoura e ajoelhava-se ao lado do gato que ronronava uma canção de paz só para ela.

− O que está fazendo aqui? Se o tio te vir você estará encrencado! − Pegou o gato no colo, embalou-o como a um bebê, e com relutância colocou-o no chão − Vamos, volte já para o quarto. Logo levarei algo para você comer.

Correu para a cozinha. Já era hora de descascar os legumes e preparar a sopa, comida diária do velho, que ainda se encontrava fechado em seu quarto, o que proporcionava alívio e a única sensação de paz que conhecia. Paz essa que logo foi quebrada pelo estalo da porta e o arrastar de pés vindo em sua direção. Esse som a colocava em estado de alerta, sentia a tensão enrijecendo os músculos de seu pescoço e ombros. 

− O que vai fazer pro almoço, Mélha? 

− Bom dia, tio, o que o senhor quer comer?

− Compra meio quilo de linguiça e não esquece o cigarro e a pinga.

− Só vou terminar a sopa e já vou.

− O que  fez a manhã inteira que ainda não acabou com isso? 

Rangeu os dentes tão alto que ficou com medo de ser ouvida.

− Lavei os banheiros, cuidei da horta, esfreguei a escadaria e varri o chão.

− Pois acorda mais cedo amanhã, sua preguiçosa. Sua mãe a essa hora já tinha tudo pronto e podia ir comprar logo minhas coisas, você sabe que eu preciso delas.

Detestava quando ele falava de sua mãe. Ainda se lembrava dos xingamentos e reclamações que ela aguentava calada. Nunca soube o motivo que a fez ficar tanto tempo. Poderia arrumar outro emprego facilmente se quisesse, mas continuava lá, suportando o mau gênio e a grosseria de tão detestável patrão. Quando ela morreu subitamente enquanto dormia, deixou Amélia, que não completara doze anos ainda, sem um teto e sem um centavo que fosse seu. Então o velho a tomou sob sua tutela, trocando trabalho escravo por casa e comida. 

Picando os legumes com uma faca recém afiada, sua vontade era enterrá-la no coração do velho, ou cortar-lhe a garganta, tinha certeza que conseguiria, ele já estava tão desgastado pela idade que não teria condição alguma de resistir. A vontade era forte, mas sempre conseguia controlá-la, respirava fundo e respondia:

− Já estou indo.

O tempo que passava fora de casa era a melhor parte do seu dia, sentia-se livre, as amarras que a ligavam ao velho eram momentaneamente desfeitas e ela relaxava, podia pensar sem medo de que ele pudesse ouvir. Demorava muito mais do que o necessário nas compras, mesmo que fosse sempre repreendida por isso. Caminhava tranquilamente pelo vasto campo que separava a propriedade das áreas mais habitadas da cidade, parava para colher algumas flores amarelas, observava os pássaros, acenava para uma carroça que passava, corria entre as árvores e quando precisava realmente extravasar, arregaçava a saia do vestido, subia em uma árvore e lá do topo gritava a plenos pulmões. Ajudava a aliviar toda a tensão. Esses momentos eram um fragmento de felicidade que guardava na memória, tão singelos e pequenos, mas quando colocados todos juntos, formavam uma colcha de retalhos, simples, mas que a aquecia no rigoroso inverno que eram  os seus dias.

Quanto mais se aproximava do antigo casarão escondido pelos ipês brancos, que mesmo na estação não floresciam há anos, sua mente vagava por inúteis planos de fuga, mesmo sabendo que o destino de uma mocinha sozinha no mundo seria no mínimo incerto e talvez calamitoso. Era isso que a fazia ficar. 

Entrou pela porta da cozinha e foi até o quarto do velho entregar seu vício diário, a porta estava aberta e ele sentando na cama imunda. Manchas de suor e urina marcavam o lençol que um dia fora branco. Lixo se acumulava no chão e sobre os móveis. O velho nunca deixava Amélia passar da porta. O cheiro era insuportável, os banhos anuais do velho não ajudavam em nada. A figura esquálida, quase cadavérica despertava a compaixão, se ele fosse mais humano, se quisesse ajuda, se deixasse ser cuidado, tudo seria tão diferente. Poderia tê-lo tratado como a um pai, mas ele preferia fazer da vida de ambos um inferno. 

Deu graças a Deus quando ele pegou o cigarro e a pinga com mãos ávidas e fechou a porta. 
Voltou para a cozinha e preparou a linguiça. Separou um pouco para si e deixou que a parte do velho cozinhasse até se desfazer, era assim que ele gostava. Levou um pouco para Felício, ele devia estar faminto. Abriu a porta do quarto e chamou pelo gatinho, estranhou que não viesse correndo e roçando em suas pernas. Seu quarto era pequeno, duas camas, um armário e uma cadeira. Desde a morte da mãe que a visão da cama vazia lhe apertava o coração, mas não pôde se livrar dela.

Felício só estava seguro dentro daquelas quatro paredes, já que era o único lugar onde o velho não pisava. Olhou embaixo das camas e lá estava o gatinho dormindo. Chamou mais uma vez, certa que o cheiro da linguiça o despertaria. Nada.

Arrastou a cama e olhando mais de perto viu que Felício agonizava. Uma espuma branca saia pela boca e seus olhinhos verdes a encaravam implorando ajuda. Pegou o gato no colo e o embalou uma última vez, acariciando sua cabeça e lembrando de todo o consolo e conforto que ele lhe havia proporcionado em sua curta vida. Lágrimas riscavam suas faces e soluços a sacudiam. A represa que encerrava a tristeza profunda em sua alma se rompeu, inundando todos os pensamentos e sentimentos, foi matando um a um, só sobrando um ódio insano. Colocou o gato sobre a cama que fora de sua mãe e foi até o quarto do velho.

Bateu com tanta força na porta que ela se abriu sozinha. O velho, ainda sentado na cama, tomava um gole de pinga e nem olhou para ela. 

− O que fez com o meu gato, seu velho maldito? − Disse entre soluços.

− Eu avisei que não queria gato aqui, não avisei? − Um sorriso asqueroso rasgou a boca sem dentes.

− Ele não fazia mal nenhum pra você. Ficava o dia todo no meu quarto. Você não tinha o direito de matar a única criatura que eu amava e que também me amava.

− Aquele quarto é meu, a casa toda é minha! Você não tem nada aqui. Ele comia a minha comida, assim como você. Eu faço caridade mantendo você aqui, sua bastardinha, se não fosse por mim você já tinha virado mulher da vida pra ter o que comer. − Os olhos apertados brilhavam e o nariz escorria com a agitação dos nervos.

Perdendo totalmente o controle, segurou a gola da camisa puída e suja que o velho usava. Tinha vontade era quebrar seu pescoço com as próprias mãos. Viu nos olhos do velho incredulidade, medo e algo como diversão.

− Posso muito bem sobreviver longe de você, mesmo que tenha que virar mulher da vida, mas e você, como sobreviveria sem mim? Se eu for embora você morre de fome, acha que alguém aceitaria trabalhar aqui? Acha que alguém suportaria um patrão tão repugnante como você? O senhor é um demônio e lugar de demônio é no inferno.

Largou a camisa do velho quando viu que estava prestes a sufocá-lo. Saiu de lá antes que seu autocontrole, que já estava em farrapos, a abandonasse de vez. Tinha só uma certeza, aquilo não ficaria assim, ela com certeza se vingaria.

Depois de embrulhar Felício em um xale de sua mãe, levou-o  até o fundo do quintal, abriu uma cova e com um último adeus enterrou o bichinho. Ele estaria em um lugar muito melhor agora e ela não sabia como suportaria a vida sem ele.

Voltou para a cozinha e viu que sobre a pia havia um frasco contendo um pó branco, na etiqueta escrita à mão só a palavra Linamarina. Não sabia o que era, mas tinha quase certeza que poderia ser o veneno que o velho usou para matar o gato. Linamarina… parecia o nome de uma mulher, ou até duas, Lina e Marina, quem sabe não era o pó das lágrimas de outras moças que o velho havia atormentado. Ainda olhando para o frasco, uma ideia pousou em sua mente e logo fez ninho.

Colocou o frasco dentro do bolso do vestido e foi até a horta, apanhou algumas folhas de chicória e picou tudo bem fininho, colocou na sopa e deixou cozinhar por mais alguns minutos.

Às seis horas da tarde em ponto, chamou o velho para comer. Ele comia uma única refeição por dia, dormia a maior parte do tempo e quando estava acordado fumava e bebia enquanto tomava café e ouvia a rádio. Fez um prato para ele e outro para si.

Já havia comido quase metade da sopa quando  ele chegou. Comeram em silêncio.

− A sopa está amarga. − Disse ele olhando diretamente em seus olhos.

− Deve ser a chicória que coloquei no meio. − Disse sustentando o olhar.

− É, deve ser isso mesmo… − Um leve sorriso passou pelo seu rosto antes que voltasse a comer. 

Comeu tudo.

Não conseguia dormir, virava de um lado para o outro na cama tão vazia. Não tinha mais o calor de Felício em suas costas nem seu leve ressonar para embalar o sono. Sentimentos e emoções novas varriam sua alma e atormentavam seu espírito.

Cobria a cabeça para tentar abafá-los, mas não conseguia, estavam dentro dela acusando-a. Se sua mãe estivesse viva saberia o que fazer. Pensou em fugir, mas não teve coragem, teria que terminar o que começara. Cada ruído de fora a assustava, seu coração martelava dentro do peito e podia sentir os batimentos nos ouvidos. Imaginou que teria um infarto antes do raiar do dia, o que não deixaria de ser uma bênção. Mas o que mais a assustava era o completo silêncio da casa. Nada de pés arrastando, nada de rádio alta, nada de gemidos. Começou a rezar por um infarto fulminante.

Enfim amanheceu e a luz do sol surpreendeu Amélia em posição fetal debaixo das cobertas, batendo o queixo de frio, embora fosse verão. Quando o quarto ficou totalmente claro, levantou e se vestiu. Colocou o único vestido preto que possuía, que fora de sua mãe, como todos os outros.

Abriu a porta do quarto devagar. Caminhou pelo corredor até parar em frente ao quarto do velho. A porta estava entreaberta. Olhou pela fresta e viu o velho deitado debaixo das cobertas com os olhos fechados e a boca aberta. Abriu a porta lentamente e entrou no quarto, ele parecia dormir um sono profundo. Olhou fixamente para ele, tentando vislumbrar qualquer vestígio de vida. O peito não subia, nem havia som de respiração. Uma mosca saiu da boca aberta e outra do nariz. Amélia apoiou-se no guarda roupa para não cair.

Olhando ao redor viu sobre o criado mudo um envelope pardo com seu nome. Dentro havia uma carta.
 
Amélia,
Então você teve mesmo coragem de me matar. Parabéns! Pensei que fosse covarde e imprestável como o seu pai. Sim, eu sei quem ele é. Vou te contar tudo desde o começo. Quando sua mãe veio procurar trabalho, já era uma solteirona quase na meia idade, mas ainda tinha seus encantos. Eu me apaixonei loucamente por ela. Teria dado o céu e as estrelas se ela me pedisse. Mas ela escolheu meu irmão. Sua mãe te ensinou a me chamar de tio, mas ela te contou tudo? Duvido muito.  Aquele sem vergonha a engravidou e não pretendia casar-se com ela. Vi a dor que ela sentiu, sua decepção. Foi então que comprei aquele frasco que você achou na pia. Seu pai teve uma morte inesperada e merecida. Ofereci casamento para ela, mas burra e fiel como era recusou, implorando por proteção e emprego. Para onde iria mãe solteira e desamparada? Tentei me afeiçoar a você, mas cada vez que te olhava era como encarar seu pai que me acusava e pedia explicações. O tempo foi passando e eu ainda tinha esperanças que sua mãe viesse a me amar. Fiz minha última declaração e proposta. Recusou na hora. Não aguentei e contei que havia sido eu que matara seu grande amor. Juro que se soubesse que ela morreria naquela noite não teria contado. Juro. Então tive que cuidar de você, minha sobrinha, que me lembrava constantemente dos meus pecados. Não que eu quisesse ou esperasse uma redenção. É tarde demais para mim. Recebi meu castigo com juros. Há alguns anos fui ao médico e depois de várias consultas e exames, me disse que tenho a doença ruim. Recusei o tratamento. Eu merecia sofrer. E sofri por um bom tempo. Mas não aguento mais essa vida, a dor é insuportável. Sabia que matar o gato era o único modo de fazer você me ajudar a colocar um fim nisso tudo. Não me arrependo do que fiz. Não pense que é uma assassina e sim que libertou esse velho maldito de sua dor e o lançou nas garras do diabo para que sofresse ainda mais no inferno que é o meu lugar.  Agora, depois de chamar o médico, que se encarregará do enterro, vá falar com o tabelião, ele te dará meu testamento. Deixei para você essa casa e todo dinheiro que consegui economizar desde a morte de sua mãe. Ficará bem até encontrar um marido.

Adeus, aproveite a liberdade.



domingo, 3 de julho de 2022

Canção de Ninar



 Assim que os primeiros raios do sol brincaram com o tecido grosso da cortina, fazendo com que o quarto, antes escuro e quase mórbido, tomasse ares dourados, Elene se levantou tateando os pés no tapete macio, tentando encontrar os chinelos, sem fazer som algum. Não queria acordar Roberto.

Saiu  na ponta dos pés e correu até o quarto da Luísa. Ela ainda dormia, sugando o polegar. Passou os dedos pelos cabelos cacheados e cheirosos da filha, que abriu os olhinhos pretos e sorriu, ainda com o dedinho na boca.

— Bom dia, bebê! Dormiu bem? Eu queria que você dormisse no meu quarto, mas seu pai não deixa. Acho que ele tem ciúmes, não quer dividir a mamãe com você.

Pegou a menina e colocou com gentileza sobre o trocador. Tirou a fralda, passou o lencinho umedecido e colocou uma nova. Trocou o pijama de ursinho da filha por um vestido de bolinhas rosas e roxas. Preparou a mamadeira e se aconchegou com a filha na poltrona rosa. Enquanto a menina mamava, a mãe contornava os traços de seu  rostinho com o indicador.

— Estou preocupada com o seu pai. Não sei por que ele não liga pra você… Ele era tão cuidadoso e parecia tão feliz quando você nasceu.… A última vez que falei com ele sobre a sua festinha de aniversário, ele não quis me ouvir, você vai fazer um aninho, não posso deixar passar em branco, vou fazer assim mesmo, vai ser uma surpresa, pra ele, é claro. Já mandei os convites, encomendei um bolo, salgadinhos e docinhos, e até os balões cor de rosa que você tanto gosta… Então, vamos ficar  bem quietinha e longe dele por esses dias, tá bom?

Elene passou a manhã inteira entretida com Luísa e mal se deu conta que já era quase hora do almoço, precisava preparar a comida antes que o Roberto chegasse.  Assim que Luísa nasceu, ele contratou uma empregada, uma senhora magra, alta e carrancuda, que atendia pelo nome de Leonor.  Ela limpava a casa toda, mas não cozinhava nem ficava de  babá, parecia ter horror a crianças. Elene não suportava a mulher e se pudesse, já teria mandado ela embora de sua casa há muito tempo, mas Roberto insistia em mantê-la.

Tentava sempre dar o almoço de Luísa antes do marido chegar, mas não teve tempo. Deixou a menina no quarto enquanto almoçava com Roberto. Os dois em silêncio. Sabia muito bem que ele nunca queria falar sobre a filha e muito menos ouvir qualquer coisa sobre ela, então não falava nada. O que diria? Sua vida consistia em ser mãe, só isso.

Ouviu Luísa chamando, o choro começou baixinho, mas foi aumentando até não poder mais ser ignorado.

— Onde você vai? — Perguntou o marido, limpando a boca com um guardanapo.

— Vou ver o que a Luísa quer, não está ouvindo ela chorar?

— Senta aí, Elene, deixa ela chorar! — Seu olhar era tão duro, tão cheio de raiva, tão louco, que ela não teve coragem de desobedecer.

Sentou novamente e comeu o mais rápido que conseguiu, com as lágrimas escorrendo pelo rosto, formando um bolo na garganta que dificultava ainda mais a tarefa de engolir. O choro da filha ardia em seus ouvidos e queimava seu coração.

Assim que terminou, levantou e foi correndo até o quarto da menina que berrava inconsolável, de pé, segurando nas grades do berço. Pegou Luísa no colo e a embalou até sentir a filha relaxando em seus braços.

— Tá tudo bem, filha. Um dia a mamãe vai levar você embora daqui e seremos só nós duas… Quando ele sair eu te dou almoço. Isso… A mamãe está aqui. Não se preocupe…

Não podia perdoar o marido. Nunca o perdoaria! Já havia planejado escapar dele, levar sua filhinha para longe dali, poder dar toda a atenção que ela merecia. Mas nunca tinha oportunidade. Leonor estava sempre por perto, e quando ela ia embora, tinha o Roberto.  Sempre rondando, vigiando, tentando ocupá-la com outras coisas, qualquer coisa, contanto que deixasse a menina sozinha no quarto.

Queria entender esse rancor, esse ódio. O que a filha poderia ter feito para que ele a odiasse tanto?  Tentou se lembrar de quando isso começou. Ele simplesmente foi se desligando, de forma lenta e gradual . Agora precisava esconder a filha dele, não deixar que suspeitasse de sua presença. Fazia questão de dormir só depois que ele adormecesse e acordar antes dele, tinha medo do que ele poderia fazer com a filha se ela  não estivesse por perto.

Ficou com a menina nos braços até que ele voltasse para o trabalho, cantarolando a canção de ninar que fizera para ela.  O calor do corpinho da menina tirava toda a sua angustia, seu cheiro de bebê a acalmava, as brincadeiras e gracinhas a alegravam e então seu dia ia passando, era assim que suportava.

Elene aproveitou que Luísa adormeceu para tomar um longo banho,  precisava relaxar. A constante preocupação a deixava tensa, os nervos doloridos, o coração sobressaltado. Não conseguiria viver muito mais tempo assim, iria conversar seriamente com o Roberto e pedir o divórcio antes que acontecesse uma tragédia.

Saiu do banho envolta em um roupão branco e felpudo, foi até a cozinha tomar um copo de água. Enquanto bebia, viu a pasta de Roberto sobre a mesinha da sala.  Colocou o copo na pia e correu até o quarto da filha.

Ele estava de pé, olhando para o berço. A menina balbuciava e estendia os bracinhos para ele. E ele ficou lá, só olhando. A filha queria colo, e ele não mexia um músculo para pegá-la. Lágrimas escorriam pelo rosto de Elene. Por mais que ela quisesse que ele voltasse a ser o marido carinhoso e o pai apaixonado que um dia já fora, algo lhe dizia que isso nunca mais aconteceria, que seja lá o que se passava com ele, era irrevogável.

— Pega ela, Roberto. Ela precisa do carinho do pai.
— Sussurrou. A esperança insistindo até o fim.

Ele olhou para trás, enxugando os olhos vermelhos que continham um ódio assustador. Não disse uma palavra, saiu do quarto e se fechou no banheiro. Ele planejava alguma coisa.  Esse sentimento fez um choque percorrer todo o corpo de Elene, precisava ficar alerta, não desgrudar os olhos da filha e planejar a fuga o quanto antes. A conversa sobre o divorcio não adiantaria, nem a festinha que tanto queria. Precisava agir rápido. A filha corria perigo!

Não conseguia dormir. Tentava imaginar um plano de fuga, mas para onde iria? Sua família morava do outro lado do país, suas amigas se afastaram quando Roberto começou a ficar estranho, estava sozinha e não tinha dinheiro suficiente para sair da cidade. Pensou em chamar a polícia, mas não tinha uma queixa concreta, ainda. Não era contra a lei odiar os filhos, infelizmente.

Olhou o marido que dormia, tão tranquilo, parecia até outra pessoa. Lembrava o homem de antes, aquele que ela amava. Ficou olhando para ele… Quando acordou ele não estava mais lá.  Demorou apenas cinco segundos, daqueles que  separam o sonho da realidade, para que ela lembrasse da filha.

Correu até o quarto da menina implorando para não ser tarde demais. Abriu a porta e a primeira coisa que viu foi o berço vazio. O pânico impedia os pensamentos de fluírem e dificultava a respiração. Olhou no quarto todo, saiu pela casa gritando a filha e procurando em cada canto, cada lugarzinho que um bebê poderia se esconder, mas no fundo sabia que não a encontraria. O marido também não estava lá.

Pegou o telefone e ligou para a polícia.  Assim que desligou, ouviu o barulho de chave na porta da frente. Correu até lá, a esperança ainda insistia que ele a traria de volta, que haviam dado só  um passeio, que ela estava segura, mas assim que a porta se abriu  a esperança morreu. Roberto entrou segurando apenas uma sacola da padaria.

— Onde está ela? O que você fez? — Gritou desesperada.

O semblante antes sereno do marido se alterou, seu olhar ficou duro e frio, ele se aproximou dela,  segurou seu braço e a arrastou para fora de casa, ainda de camisola.

— Quer saber onde ela está? Vou te levar até ela…— Abriu a porta do carro e a jogou para dentro.

Quando a polícia chegasse seria tarde demais, tanto para Luísa quanto para Elene. Ela sabia disso. Era tarde demais. Ele dirigiu como um louco pelas ruas da cidade. Não falou uma palavra. Elene só queria a filha de volta, precisava dela. Como sobreviveria sem ela? O que a consolou foi que provavelmente logo estariam juntas, de um jeito ou de outro.
Roberto parou o carro e arrastou a esposa para fora. Elene reconhecia aquele lugar, já estivera ali antes.   Ela sabia o que viria, sabia e preferia morrer a ter que passar por aquilo de novo.

— Não! Pelo amor de Deus, Roberto, vamos embora! Eu não quero ver, não quero ver…

Se debatia e chorava, gritava e  implorava, mas ele continuava arrastando-a pelos corredores, até jogá-la sobre uma placa de mármore.

— Você não queria saber onde ela estava? Não queria saber o que eu tinha feito com ela? Olha ela aí.  Olha!  — Segurou o rosto da esposa e a obrigou a olhar.

Antes que Elene abrisse os olhos  já sabia o que iria encontrar e daria qualquer coisa para não ter que passar por aquilo novamente. Viu uma lápide branca. Uma foto de Luísa, ainda com dias de vida, emoldurada logo acima de seu nome.  Como das outras vezes, tudo ficou claro em sua mente.
Todo o ódio nos olhos do marido se transformou em dor, o tempo todo era dor, exaustão, tristeza e angustia.

— Eu não aguento mais, Elene, não quero te colocar em uma clínica, mas não estou suportando mais. É demais para mim. Não posso ficar triste, não posso chorar, não posso sentir saudade da minha filha com você nesse estado. Você precisa superar isso… sei que é quase impossível pra você, mas eu não posso mais continuar assim, por favor, Elene… por favor.

Elene viu como o marido havia envelhecido, como a dor o havia destruído. Mas ela não podia desistir da filha, não podia abrir mão dela, senão não sobreviveria. Se permitiu lembrar, uma última vez.
O sentimento de impotência, de sufocamento, a filha recém nascida no colo. Olhava para ela e não sentia nada além de cansaço e desesperança.

Tristeza. Sua alma estava na mais densa escuridão. O bebê chorava tanto. “Dorme filhinha do coração e não tenha medo de nada não…” Cantarolou até que o bebê ficou em silêncio. E ela pode deitar ao lado da banheira e dormir. Acordou com o marido gritando com ela, pegando a filha e correndo com ela para o médico, mas era tarde demais, tarde demais…

A lembrança vinha como uma bomba atômica que a destruía por dentro. A dor era insuportável. E ela chorava, em posição fetal, sobre o túmulo da filha.  Roberto a pegava no colo e a carregava até o carro e a levava de volta para casa. A polícia não viria naquele dia, já não atendia mais aos chamados de Elene.

No resto do dia, Roberto e Elene choraram juntos. Ela implorou por mais uma chance, não queria continuar assim, alheia à realidade. Prometeu que não se esconderia da dor, que a enfrentaria. Naquele dia eles eram eles mesmos. Vivendo o luto.  Eles dormiram abraçados e Roberto torceu para que ela tivesse forças.

Quando amanheceu, Elene acordou com dor de cabeça, os olhos inchados denunciavam o choro, a sensação de desespero quase tomando conta dela, até que o choro da filha a acalmou. Levantou, sem acordar o marido, e foi até o quarto da menina. Ela estava lá, com seu pijama de ursinho, o cabelo bagunçado e os olhinhos cheios de lágrimas. Estendeu os bracinhos para ela.

— Bom dia, Bebê! Senti tanto a sua falta!

sábado, 2 de julho de 2022

Recomeço

 



Chovia pela segunda semana seguida, impedindo qualquer excursão ao ar livre para inspirar mais uma tela, fazia quase um mês que não pintava, tempo demais. Olhando pela janela, de roupão, cabelo preso em um rabo de cavalo e uma caneca cheia de café quente e cheiroso, Élida suspirava e tentava pensar em algo que espantasse seu tédio. Se ao menos houvesse algumas crianças correndo pela casa, bagunçando a ordem perfeita dos móveis, bibelôs, almofadas e quadros, ou pelo menos um cachorro, gato, passarinho… Para arrumar as crianças era tarde demais, mas para um cãozinho mão era… quem sabe.

Pensou em Miguel, era por causa dele que não tivera um cachorro ainda, agora poderia ter. Suspirou novamente e bebeu um gole do café que esfriava, olhou a fotografia de seu casamento, estampando uma das paredes da sala, estava tão feliz, o sorriso iluminando mais do que o sol daquele fim de tarde e Miguel com aquele olhar apaixonado que sempre aparecia quando olhava para ela. Quando aquele olhar foi sumindo? Não se lembrava. Precisava pintar! Mesmo sem inspiração, tinha a necessidade de criar mais uma tela. Calçou as galochas, pegou a sombrinha e foi até seu ateliê, um cômodo bem espaçoso e iluminado logo atrás de sua casa, com entrada independente. Era lá que passava quase todo o seu tempo, sua vida florescia entre tintas e pincéis.

A urgência de seu estado de espírito se revelou uma ótima inspiração. Pintou como nunca pintara até então, a tela era crua, uma cena de chuva, cheia de paixão e pinceladas desconexas, refletia perfeitamente seu ânimo naqueles dias. Ficou estranhamente satisfeita ao observar a tela pronta, era como se olhar em um espelho que refletia sua alma, apesar de triste era bela. 

Notou que lá fora já era escuridão, mais uma vez perdera a noção do tempo, olhou o relógio gigante que Miguel havia pendurado na parede principal do ateliê, já eram quase três horas da manhã. Suspirou enquanto limpava os pincéis e reconhecia que Miguel estava certo, quando ela pintava nada e ninguém existia mais, nem ele. Esse foi um dos motivos que o fizera ir embora. Não podia fazer nada, era parte dela, sua vida, sua paixão, sua alma estava ali, não mudaria isso por nada nem por ninguém.

Saiu do ateliê sob um chuvisco gelado, entrou em casa e sentiu o estômago roncar, não havia comido nada o dia todo, abriu a geladeira e viu que precisava desesperadamente fazer compras. Esquentou no microondas os restos da pizza que comprara no dia anterior e comeu com café, que não podia faltar. 

Tomou um longo banho quente, fervendo, que deixou sua pele clara, cor de rosa. Limpou o vapor do espelho e analisou o rosto, cada linha, cada ruga, a pele marcada pelo tempo e pelo sol, pelos risos, gargalhadas, tristezas e choros, os olhos castanhos ainda doces e juvenis, o sorriso espontâneo mostrando dentes amarelados pelo café, bendito café. Os cabelos castanhos escuros salpicados de fios brancos, não pintaria, envelheceria com orgulho. Deu de ombros e foi dormir, não sem antes rolar mais de meia hora, resistindo à vontade de tomar um remédio pra dormir, sempre resistia, não queria se entregar e reconhecer que não dormia sem ele. Já fazia mais de ano que cumpria esse ritual antes de enfim tomar o remédio e mergulhar em um sono sem sonhos.

Despertou o sol já ia alto, quase meio dia, outra manhã perdida entre inúmeras. Precisava levantar, cuidar da casa e fazer compras, mas antes, passaria no ateliê para contemplar sua mais recente obra, batizada de Melancolia.

Passou vários minutos olhando fixamente para a tela, tentando entender o que havia acontecido. Estava lá, triste e bela, intensa, a mesma do dia anterior, não fosse por um pequeno detalhe, a silhueta de um homem desenhada com traços delicados, mas precisos, parecendo fazer parte da chuva, mas nitidamente dominando-a. Tinha certeza de não ter pintado essa silhueta.

Matutou sobre aquele mistério no caminho todo até o mercado, não prestou atenção ao que comprava nem ao caminho de volta, dirigiu sua caminhonete como um autômato, nem se lembrava qual caminho fizera. Quando percebeu estava lá, olhando a tela novamente, intrigada. Será que havia sido ela a pintar a silhueta, sabia que passara o dia e a noite toda pintando, sem comer nada, mas não estava louca, tinha certeza que não fizera aquilo. Então, quem teria feito? Como? E principalmente por quê?

Um pensamento atingiu sua mente e foi correndo olhar suas ultimas telas, estavam todas guardadas em seus respectivos lugares, olhou uma a uma e não pode conter um misto de admiração e curiosidade, em todas, desde seu divórcio, havia a mesma silhueta, disfarçada entre a paisagem. Talvez estivesse ficando louca, afinal. Ou talvez precisasse resolver aquele mistério.

Foi para casa, se acalmou, organizou as compras, gargalhou ao perceber que comprara comida de gato ao invés do atum que pretendia, comprou também uma peça inteira de pernil e uma cartela inteira de ovos. Como conseguiria comer tudo aquilo antes que estragasse? Resolveu relaxar, sair para arejar a mente. A chuva amainara e logo o tempo firmou, nublado, carregado, úmido, mas sem chuva. Trancou a casa e saiu, iria com sua caminhonete até onde a estrada a levasse ou até que a urgência em pintar outra tela a trouxesse de volta.

Ligou o rádio bem a tempo do começo da melodia de Dancing Queen se espalhar pela cabine da caminhonete, Élida aumentou o volume e pisou no acelerador. Abriu as janelas e um vento cheio de gotículas geladas armava seu cabelo. Sentia-se viva e inquieta, tinha um mistério pra resolver, uma novidade. Quando o estômago reclamou, encostou o carro em um mirante, saiu, alongou as pernas e a coluna, pegou a garrafa térmica cheia de café, o sanduíche que fizera e um bolinho de chocolate daquele saquinho com nome de mulher.

Não tinha preço admirar aquela vista das montanhas, tão perto que tinha a impressão de poder tocá-las, já havia pintado aquela paisagem inúmeras vezes, mas cada vez que visitava o local tinha um novo olhar sobre ele, uma nova inspiração, nada na vida é limitado, tudo esconde inúmeras possibilidades. Viu que as gotículas do chuvisco que caia deixavam as flores ainda mais vivas, tentaria captar o brilho que a chuva trazia para a natureza, imaginou se as tristezas que molhavam sua alma também deixavam uma aura especial em sua vida. Já era hora de voltar. Tinha a inspiração e uma ideia de como resolver o mistério.

A volta foi tranquila, sonolenta, chegou em casa e foi direto para a cama, sem relutar, tomou o remedinho pra dormir. Acordou com o despertador aos berros, levantou animada, pronta para pintar, abriu as janelas e foi recompensada com um dia de sol, colocou o roupão sobre a camisola e foi direto para o ateliê. Ligou a cafeteira e colocou uma tela em branco sobre o cavalete, pincéis e tintas alinhados. Apertou o play e o Réquiem de Mozart ecoou pelo estúdio, estava pronta.

Pintou flores quase psicodélicas, todas reluzindo com minúsculas partículas de luz, pareciam etéreas, cheias de brilho quase saltavam da tela. Nunca havia pintado nada parecido, a força e a perfeição da tela deixaram Élida assustada, não fazia ideia de que podia pintar assim. Já era muito tarde, mas ela ficou admirando a tela por um bom tempo ainda, não conseguia se separar dela. Batizou-a de Renascimento, não entendia bem por que.

Como, na vida real, a lógica sempre é o caminho mais fácil para resolver um enigma, resolveu trancar a nova tela em um armário recém adquirido que só ela possuía a chave. Se ainda assim a silhueta do homem misterioso aparecesse aí seria caso de internação em uma clínica psiquiátrica ou, quem sabe, chamar um padre para benzer e exorcizar o local, não sabia qual seria o pior.

Os dias se passaram e nada aconteceu, sua última tela continuava intacta. Por um lado se sentiu aliviada e por outro, apreensiva, alguém realmente entrava em seu ateliê e alterava suas telas. Só sabia de uma pessoa que poderia ter a chave e um motivo. Passou o dia todo aperfeiçoando um plano.

Depois que um simples telefonema confirmou todas as suas suspeitas, pôde colocar seu plano em ação. Primeiro, marcou um horário na esteticista, fazia séculos que não cuidava da aparência, olhou para suas unhas, entre compridas e curtas, sem modelo definido, as cutículas ainda manchadas com restinhos de tinta azul. Não olhou, mas sabia que sua depilação estava vencida. O dia seria cheio. Não sabia como as mulheres gostavam tanto disso. A depilação foi dolorosa e constrangedora, a manicure foi suportável e todo o tempo gasto com cabelo, massagem, cuidados com a pele e maquiagem seriam muito melhor usados se estivesse pintando, ou até mesmo dormindo.

Depois de tudo pronto, quase não se reconheceu no espelho, não parecia ela mesma, não estava autêntica, parecia uma tela que antes era simples, mas linda por ser única, que foi enfeitada até ser exatamente igual a muitas outras, sofisticadas e caras. Bem, se arrumar assim uma vez ou outra não faria mal nenhum, afinal, e para executar seu plano, até que estava muito bem.

Olhou para o relógio e viu que estava na hora, pegaria o gato no pulo. Deixou a caminhonete em casa e chamou um táxi. Não se sentia ela mesma com o vestido anil, na altura dos joelhos e o scarpin preto com a sola vermelha, até havia colocado perfume, Kenzo Amour, que rescendia como baunilha quentinha em um bolo. Quando o táxi chegou, deu uma última olhada no espelho e retocou o batom vermelho, prontinho, estava irreconhecível.

Chegou ao estúdio de pintura da sua antiga professora bem no meio de uma aula, acenou para sua mestra querida e com um olhar pela sala conseguiu localizar quem queria, lá estava ele, concentrado em sua tela. Pode observá-lo à vontade, fazia tempo que não o via, estava tão bonito, ainda mais assim, entregue a uma tela, jamais imaginou que poderia vê-lo nessa situação. Seus cabelos tinham muito mais fios brancos do que se lembrava e seus olhos, olhando para a tela, tinham aquela luz, aquele fogo, que antes era destinado só a ela. Sentiu uma agulhada de ciúmes, então era assim que ele sempre se sentiu? Revelador…

Não queria perturbá-lo enquanto pintava, mas precisava ver sua tela, o que ele pintava de maneira tão apaixonada. Como quem não queria nada, começou a passear entre os alunos e admirar suas telas, ninguém parecia notá-la, foi andando sem pressa até parar bem atrás dele. A pintura logo chamou sua atenção, era um esboço ainda, mas podia distinguir nitidamente seu próprio rosto, com todas as imperfeições que a faziam única. Então continuava sendo pra ela, aquele olhar.

Sentia as batidas do seu coração nos ouvidos, teve vontade de tocá-lo, abraçá-lo, sentir seu perfume, tão conhecido, dizer que o queria de volta. Recompôs-se antes que as lágrimas que boiavam em seus olhos fizessem escorrer todo o maldito rímel. Saiu antes que fosse descoberta, sentou-se em um banco, do lado de fora do estúdio e esperou o fim da aula.

Viu, um por um, os alunos saindo, ele provavelmente seria o último, tão dedicado que era em tudo o que se propunha a fazer. Levantou-se assim que o viu passar pela porta, distraído, ainda colocando uma mochila nas costas.

– Miguel – chamou com a voz trêmula.

Ele parou, olhou para trás e levou meio segundo para reconhecê-la.

– Élida? O que está fazendo aqui? – Seu sorriso era igual ao de um menino travesso pego em uma de suas peraltices.

– Precisava ver com meus próprios olhos… Você me deu um baita susto, quase chamei a polícia para te levar, invasão de propriedade e alteração de trabalhos alheios é crime, sabia? – Embora quisesse parecer séria, não conseguiu, acabou rindo no final da frase.

– Você demorou muito para descobrir… Estava quase indo te mostrar eu mesmo… Me diz o que achou… – Em seu olhar havia uma prece muda para que ela tivesse entendido o que ele pretendia com aquilo tudo.

– Eu acho que você não foi nada sutil… e se esforçou muito. Aprendeu a pintar e alterou minhas telas só pra me mostrar que faltava alguém na minha vida, apesar de tudo… Mas foi você quem foi embora, que não aguentou que a arte viesse sempre na frente…

– Não me importo mais que a arte venha na frente, contanto que eu esteja logo atrás. Podemos ir até a sua casa para conversar melhor? – Mais uma vez o apelo mudo, os olhos implorando uma nova chance.

Ela continuou olhando para ele, enquanto em sua mente todas as lembranças dos tempos felizes desfilavam, eram muitas… O primeiro olhar, o primeiro beijo, o sim pensando ser para sempre, o cheiro de cookie recém assado nas manhãs de domingo, as horas na banheira, cheia de espuma, onde longas conversas aconteciam… Não sabia realmente o quanto sentira a falta dele até estar na sua frente, sentindo seu perfume, lembrando o gosto de sua boca. Não resistiu…

– Vou chamar um táxi.

– Não precisa – disse estendendo o capacete que segurava – estou de moto. Vamos?

Élida, nem pensou que seu vestido voaria ou que o capacete estragaria seu penteado e maquiagem, pegou o capacete e subiu na moto, colocou os braços ao redor da cintura de Miguel e rumou em busca da felicidade perdida.


sexta-feira, 1 de julho de 2022

Do tamanho do infinito


 Querida Mamãe,


Estou com muitas saldades, dês de que a senhora foi em bora que meu coração ficou com um buraco que dói muito. Todas as noite eu choro até durmir porque você não está mais com migo. Quando a senhora volta? Te amo muito mesmo.


Tati


 


Pudinzinho,


Eu estou fazendo uma viagem muito longa. Ficarei longe bastante tempo. Por favor, meu amor, não fique triste, se você ficar sempre triste eu também ficarei. Prometa para a mamãe que tentará ficar feliz! Vamos fazer um trato, você me escreve sempre que quiser, me conte tudo o que está acontecendo com você, tudo que estiver sentindo ou pensando e eu te respondo. Prometo que sempre estarei dentro do seu coração, mesmo que você não possa mais me ver. Seja boazinha com o papai e com a vovó. Continue estudando, você está escrevendo cada vez melhor, estou muito orgulhosa de você. Escove os dentes depois de todas as refeições e não se esqueça que mesmo que o papai não saiba demonstrar muito bem, ele te ama muito, e eu também.


Mamãe


 


Querida Mamãe,


Gostei da ideia de trocar cartas com você, assim não ficarei mais tão triste. Eu prometo escovar os dentes e ser boazinha, mas você me promete voutar logo? Eu to indo bem na escola, a tia Geovana está sendo muito boazinha com migo, ela sempre pergunta se eu tou bem. A vovó vem todo dia aqui em casa, ela faz comida, tenta fazer igual a sua, mas não consegue. O papai está muito triste, ontem vi ele chorando no quarto, ele também sente sua falta. Volta logo. Te amo muito!


Tati


 


Pudinzinho,


Que bom que está indo bem na escola! Preste bastante atenção na aula e sempre converse com a tia Giovana, conte pra ela qualquer coisa que estiver te incomodando. Tá bom? Diga para a vovó que a comida dela também é muito gostosa, ela tenta fazer igual a minha para te fazer feliz, ela está fazendo tudo que pode. Dê um abraço bem forte nela e diga que agradece por tudo que ela faz por você e pelo papai. Meu amor, seu pai está triste sim, ele também sente a minha falta, por isso que ele chora e não fala muito de mim, ele só precisa do seu abraço e de um beijo bem gostoso, vendo que você está bem ele já fica feliz. Não posso voltar ainda, mas penso em você todos os dias e peço para o Papai do Céu cuidar de você. Não esqueça que eu te amo muito!


Mamãe


 


Querida Mamãe,


Eu fiz o que você me pediu e a vovó ficou muito feliz, ela até chorou, mas disse que foi de felicidade… dá pra chorar de felicidade? O papai também gostou do beijo, ele disse que eu pareço com você. Ele estava sorrindo hoje. Mamãe, eu sonhei com você, foi tão bonito… nós estava no parque, lembra que a gente ia lá toda semana? Então, a gente estava sorindo e correndo e depois fizemos pique nique. Eu acordei feliz, mas depois lembrei que você não estava aqui de verdade e fiquei triste denovo. O papai não me leva no parque, acho que ele não gosta, que pena. Talvez a vovó queira ir… vou ver com ela. Beijinhos, mãezinha. Te amo!


Tati


 


Pudinzinho,


Dá pra chorar de felicidade sim e eu prometo que você vai chorar mais de felicidade do que de tristeza em toda a sua vida. Você é uma criança maravilhosa, mesmo estando triste consegue fazer todos à sua volta felizes. Continue com os abraços e beijos, eles dão energia para aqueles que estão com você. Peça ao papai pra te levar no parque, ele não te leva só porque não tem o costume de ir, mas sei que vocês dois podem começar seus próprios passeios e juntar muitas memórias boas. Eu queria aparecer nos seus sonhos todos os dias, para que você acordasse sempre feliz! Não fique triste, pudinzinho, estou longe, mas sempre estarei dentro do seu coração! Continue estudando muito, sua escrita tem melhorado muito! Te amo do tamanho do infinito!


Mamãe


 


Querida Mamãe,


Faz tempo que não escrevo, estava muito ocupada! O papai tem me levado para muitos passeios, você estava certa, era falta de costume mesmo, logo que pedi pra irmos no parque ele já arrumou a sesta de pique nique e passamos o dia todo lá. Agora vamos a lugares novos e divertidos, fomos no zoológico e vimos um monte de bichinhos e bichões, você ia gostar muito. A vovó vai com a gente as vezes, ela parece tão velhinha, tadinha, dês de quando você foi embora que ela foi ficando assim, cada dia mais velhinha… se você voltasse, ela ia voltar a ser jovem, tenho certeza. Ahh, entrei na aula de canto!! Você sempre dizia que eu tinha a voz mais linda que já escutou. Agora to aprendendo a cantar ainda mais bonito pra que todos possam ouvir e ficarem felizes, igual você ficava. Te amo muito!


Tati


 


Pudinzinho,


Fiquei muito feliz de saber de tudo isso, parece que você está mais animada e feliz! Não chora mais todas as noites antes de dormir? Sabia que você e o papai iriam logo se aproximar mais, isso me deixa muito feliz! Não posso voltar ainda, então cuide bem da vovó, ela vai continuar a ficar cada vez mais velhinha então vai precisar ainda mais dos seus beijinhos e abraços. Cante para ela, leiam seus livros preferidos juntas, passe muito tempo com ela, isso vai fazer ela ficar feliz. Brinque bastante e faça muitas amiguinhas e não se apresse a ficar perto dos meninos. Ainda tem muito tempo pra isso. Me escreva só quando você puder e quiser, sempre responderei, mas lembre-se que estou todo o tempo dentro do seu coração. Te amo muito mais!


Mamãe


 


Querida Mamãe,


Não se preocupe comigo, as coisas estão melhorando muito, não choro mais antes de dormir e estou aprendendo a viver longe de você, mesmo sabendo que você está sempre dentro do meu coração. Estou indo muito bem na escola, sou uma das melhores da classe, meus professores dizem que se continuar assim vou ser a melhor aluna da escola. Papai está bem melhor também, nós nos aproximamos muito, ele parece mais feliz, mas ainda sente a sua falta. Como você pediu, estou passando muito tempo com a vovó e isso tem feito bem a ela e a mim também, obrigada pela dica. Vou continuar escrevendo sempre que a saudade bater forte. Te amo como sempre!


Tati


 


Pudinzinho,


Ainda posso te chamar assim? Você deve ter crescido muito já, com certeza está linda e continua tão bondosa e carinhosa como quando era ainda o meu pudinzinho, tão doce e fofa. Mas agora você mão é mais uma criancinha, já é uma mocinha. Queria muito ter estado aí com você esse tempo todo e visto como você cresceu bem… Sinto muito a sua falta! Cuide da sua saúde, estude bastante, passeie muito e seja muito feliz, minha filha, cuide do papai e da vovó também e não se esqueça que eu te amo pra sempre!


Mamãe


 


Querida Mamãe,


A vovó não está mais com a gente, ela se foi, igual a você. Vocês estão juntas agora? Aposto que sim, ela sempre dizia que pra uma mãe, perder um filho era como morrer aos poucos, não sei se foi assim pra você também, mas acho que sim, afinal, você também me perdeu, ou eu te perdi. Nunca vou me esquecer de você, mesmo que viva mil anos. Te amo pra sempre!


Obs: Papai, já faz um tempo que sei que é você quem responde as cartas. Obrigada por ter feito esse momento da minha vida mais suportável. Não pretendo escrever mais pra mamãe, mas podemos começar a escrever um para o outro, que tal? Te amo infinitamente.


Tati


quinta-feira, 30 de junho de 2022

Sol de inverno



As manhãs de inverno, para mim, são sempre as melhores. O ar, entrando gelado para os pulmões e saindo em forma de vapor. O sol tímido, com sua luminescência dourada e sua capacidade de queimar reduzida. Morno, eu diria. Esse equilíbrio da natureza me encanta.  Sol de inverno é sempre o melhor.

Nesses dias minha mãe sempre coloca vários agasalhos em mim, blusas de lã, por cima do pijama, calça de moletom, meias de lã, feitas por ela mesma, casacos e cobertores, sem falar na touca e nas luvas. Nem se eu pudesse, conseguiria me mexer. Mas eu gosto assim, sinto-me protegida. Ela coloca minha cadeira no quintal, perto da goiabeira. Sinto o cheiro adocicado das goiabas, vejo os passarinhos disputando pelas frutas mais maduras, eles não se importam com a minha presença, já estão acostumados com a menina estátua que vem visitá-los todos os dias.

Vegetal. Foi assim que me classificaram, mas não me sinto assim. Só porque não posso me comunicar, não significa que não existo, afinal, para existir basta pensar, não é mesmo? E pensar eu faço muito e muito bem.

 

Tenho certeza que minha mãe sabe que eu estou aqui. Os médicos dizem que ainda é um mistério, a mente de pessoas como eu, dizem que não é possível saber se dentro dos corpos paralisados existe um ser vivo, mas a minha mãe sabe. Ela me trata como se eu fosse normal, fala comigo como se eu conseguisse responder, me ensina como se eu pudesse aprender. Ela é muito esperta. Sabe de tudo. Eu aprendo muito com ela. Fico imaginando como seria se eu fosse filha de pessoas menos capacitadas para me criar, me amar. Tenho certeza que agora estaria em um hospital, um asilo para deficientes. Mas Deus preparou a minha mãe para cuidar de mim.

 

Meu mundo é fisicamente muito limitado, mas graças a minha mãe, não tem limites. Já li inúmeros livros, sempre com a ajuda dela. Tenho um gosto muito específico por músicas clássicas e filmes românticos, até sonho, mesmo sabendo ser impossível, com um rapaz que conseguirá ver o que sou por dentro e me dará um beijo tão puro e apaixonado que será capaz de me despertar. Aprendi inúmeras coisas nos canais culturais e gosto de acompanhar os jornais e saber o que acontece no mundo. Aprecio a natureza e sei o nome das árvores, folhagens, flores e ervas de nosso jardim, assim como de todos os jardins da vizinhança.

 

Sei o nome dos vizinhos e conheço um pouco de suas histórias,  tenho predileção pelas criancinhas, que não se assustam comigo, querem me tocar, me abraçar e minha mãe sempre deixa, ela acha que amor e carinho nunca são demais e ela está certa. Eu preciso de contato físico, assim como todo mundo, e ela entende isso muito bem, sempre me abraça, me beija, diz o quanto me ama e o quanto ela tem sorte de ter alguém como eu na vida dela.

 

Quando eu era pequena, ganhei um gatinho, ele me faz companhia, ronrona quando estou feliz e se esfrega em mim quando estou triste. Amo também todos os animais e eles parecem gostar muito de mim. Minha mãe me leva sempre pra visitar o zoológico e algumas fazendas. Ela me leva na praia e me coloca deitada na areia molhada, com as ondas lambendo meus pés. Amo sentir o vento em meu rosto quando ela corre, empurrando minha cadeira.

 

Ela acha que eu não sei, mas eu percebo todo o trabalho que ela tem comigo. Vejo o quanto ela queria que eu fosse normal. Noto como está cansada, como se dedica incansavelmente para me dar tudo o que eu preciso. Cada segundo que tira do cuidado que ela teria que ter consigo mesma para se dedicar a mim, eu vejo tudo. Penso se ela seria mais feliz se eu não existisse. Ela com certeza teria mais tempo livre, mais horas de sono, mais lazer, talvez praticaria algum esporte. Quem sabe trabalharia em algo empolgante. Sempre penso sobre isso. Ela seria mais feliz se eu não existisse? Mas não posso perguntar isso para ela.

 

Eu faria tudo por ela, se pudesse. Retribuiria cada sacrifício, cada carinho, cada lágrima. Só posso tentar viver da melhor forma possível, aproveitando tudo que ela faz por mim. Minha forma de retribuir é sendo feliz e plena, algo que ela sempre me diz pra ser. Sei que o maior presente que posso dar à ela é ser feliz. E eu sou, graças a ela.

 

O sol de inverno tocando minha pele me dá uma sensação de aconchego e paz. O vento gelado brinca com meus cabelos que tem mais movimento do que eu, sorrio por dentro, penso na vida, na sorte, no amor. Penso em tudo que tenho, tudo que sou. Fico feliz por existir, fico feliz por estar viva. Uma abelha pousa em meu nariz, não sinto medo, observo atentamente seu corpinho tão maravilhoso, as asinhas perfeitas e as cores tão harmoniosas. Ela tem o seu propósito na vida e eu também devo ter o meu. Sei que um dia chegarei a decifrá-lo, claro, com a ajuda da minha mãe. Ela é meu sol de inverno.




Diana

  Chovia há tanto tempo que a humanidade já havia se esquecido de como era o sol. Os poderes do fogo eram escassos e os que o dominavam esta...

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